domingo, 26 de setembro de 2010

Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) - atualizações

Entre os dias 20 a 22 de setembro ocorreu em Campinas (SP), uma oficina regional sobre a revisão do Plano Nacional de Recursos Hídricos, com foco na Bacia Hidrográfica do rio Paraná. As ONGs ANGÁ e Ambiente Educação Interativa (AMEDi) estiveram presentes, contribuindo nas discussões do plano.  A AMEDI representou o CBH Baixos Afluentes Mineiros do Rio Paranaíba (PN3) na condição da sociedade civil. Outros Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) de Minas Gerais, como CBH do rio Araguari (PN2) e CBH rio Grande também compareceram.

O Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) é o instrumento balizador para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e a estruturação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), tendo sido aprovado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) em janeiro de 2006 e lançado pelo Presidente da República em março do mesmo ano.

As propostas do PNRH objetivam aperfeiçoar questões institucionais e legais, como a composição dos colegiados de recursos hídricos; a personalidade jurídica das agências de água; a sustentabilidade financeira do SINGREH. Além disso busca promover a agilidade e a racionalidade na implementação dos instrumentos da política e aprofundar, por meio de estudos estratégicos, temas de interesse nacional, como as relações entre a dinâmica econômica e o uso dos recursos hídricos.

O Plano foi desenvolvido por meio de uma ampla consulta nacional e incorpora a diversidade inerente à temática da água no País. Seus programas e ações almejam o alcance de seus objetivos finais: a melhoria das disponibilidades hídricas, a redução de conflitos pelo uso da água e o aumento da percepção do valor da conservação da água.

O PNRH está em processo de revisão e atualização, conforme previsto na Resolução CNRH nº 58, de 2006. O objetivo deste processo é avaliar os avanços e desafios dos primeiros 5 anos de implementação (2006-2010), realizar adequações e correções de rumo, priorizar ações para gestão integrada de recursos hídricos no período 2011-2014 e definir estratégias para a sua implementação.

Para tanto, a revisão foi programada para ocorrer de modo participativo, por meio de duas vertentes, uma regional e outra nacional temática. De forma regional, atualmente estão sendo realizadas 12 oficinas, com foco nas regiões hidrográficas do país (Figura 1).

Figura 1. Mapa das 12 regiões hidrográficas do Brasil.

Bacia do Paraná

A RH alvo da oficina (RH-Paraná) apresenta superfície de 879.860 km², equivalente a 10.3% do território nacional, com extensão em 7 unidades da federação, sendo 24.1% pertencentes à área do Estado de São Paulo, 20.9% do Paraná, 19.3% do Mato Grosso do Sul, 18% de Minas Gerais, 16.1% de Goiás, 1.2% de Santa Catarina e 0.4% do Distrito Federal.

A RH-PR é dividida em seis unidades hidrográficas: Grande (16.3%), Iguaçu (7.5%), Paranaíba (25.4%), Paranapanema (11.6%), Paraná (31%) e Tietê (8.2%) (Figura 2).

Figura 2. Caracterização da região hidrográfica e suas seis unidades hidrográficas.

O rio Paraná tem por principais formadores os rios Paranaíba e Grande, que se juntam para formar o Paraná no tríplice limite entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Possui extensão de 2.570 km até sua foz no rio da Prata, que, somados aos 1.170 km do Paranaíba, totalizam 3.740 km, sendo o terceiro rio mais extenso das Américas. Destacam-se, ainda, os rios Tietê, Paranapanema e Iguaçu, afluentes da margem esquerda do rio Paraná. É nesta Bacia que se localiza um dos maiores aqüíferos subterrâneos do mundo, o aqüífero Guarani.

Na RH-Paraná predominam demandas de uso consultivo da água, como usos industrial (33.9%) e urbano (33.8%), diferente do total nacional, que predominam demandas por irrigação (46%) e urbana (26%). Mesmo com elevado grau de urbanização, as questões agrárias na RH-PR mostram-se importantes e de grande atualidade, seja pela ocorrência de conflitos pela posse da terra, seja pelo grande potencial produtivo da agricultura regional e sua significação em termos de atendimento do mercado das Regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste.

A Bacia Hidrográfica do Paraná apresenta a maior capacidade instalada de geração de energia do país, com 38.470 MW, ou 63.6% do total nacional (60.511MW), evidenciando que a geração hidrelétrica é uma de suas mais importantes vocações.

Por outro lado, a predominância da geração hidrelétrica na RH-PR, com grandes reservatórios de regularização pertencentes a diversas empresas, gera preocupação quanto às dificuldades para coordenar a operação dos aproveitamentos hidrelétricos de forma a conciliar a otimização dos sistemas elétricos com o melhor uso das águas.  São comuns conflitos gerados pelo predomínio do setor elétrico na prioridade de uso da água, sendo que setores como a mineração, irrigação e transporte fluvial tratados secundariamente. Os impactos socioambientais gerados pela criação de grandes reservatórios têm se intensificado na Bacia, com a proliferação de centenas de pequenas centrais hidrelétricas em rios de menos porte.

Originalmente, a RH-PR era dominada pelos Biomas Mata Atlântica e Cerrado, com cinco tipos de cobertura vegetal: Cerrado, Mata Atlântica, Floresta com Araucária, Floresta Estacional Decídua e Floresta Estacional Semidecídua. Entretanto, o uso do solo promoveu grandes transformações na paisagem da região ao longo dos ciclos econômicos ocasionando significativa perda da cobertura vegetal e intensificação do processo de poluição nos rios. Atualmente, o Cerrado ocupa a maior extensão da região, cobrindo desde as nascentes do rio Paraná até o interior do Estado de SP, limitando-se com o Pantanal Mato-Grossense, o qual é integrado por um mosaico de ecossistemas, muitos dos quais constituem prolongamento dos cerrados. 

As poucas grandes Unidades de Conservação do bioma Cerrado e entorno representam núcleos importantes para abrigar espécies raras e ameaçadas de extinção como, por exemplo, o Parque Nacional das Emas e o Parque Nacional da Serra da Canastra.

Bacia do Paranaíba e a problemática energética

As ONGs ANGÁ e AMEDi participaram do grupo de trabalho correspondente à unidade geográfica do rio Paranaíba. 

A Bacia Hidrográfica do rio Paranaíba é a segunda maior unidade hidrográfica da Região Hidrográfica do Paraná, com 25.4% de sua área, que corresponde a uma área de drenagem de 222.767 Km2, abrangendo parte dos estados de Goiás (65%), Minas Gerais (30%), Distrito Federal (3%) e do Mato Grosso do Sul (2%). Entre os principais afluentes da Bacia destacam-se os rios: São Marcos (MG e GO), Araguari e Tijuco (MG), Bois, Turvo e Meia Ponte (GO).

A geração de energia hidrelétrica instalada na bacia do Paranaíba ultrapassa os 7 mil MW, com um total de 16 UHEs. Há ainda um potencial de geração de 2,67 mil MW por meio de UHEs e dezenas de PCHs. Entre os conflitos atuais destacam-se:
- Insuficiência hídrica para o abastecimento de grandes centros urbanos; 
- A deterioração da qualidade das águas pelo lançamento de esgotos domésticos sem tratamento adequado; 
- O uso indiscriminado para irrigação sem considerar-se os usos múltiplos das águas.

Propostas das ONGs

Entre as propostas sugeridas pela ONGs no grupo de trabalho (GT), destaca-se que seja elencado como prioridade no PNRH, a realização de estudos para a definição de áreas prioritárias para conservação dos ecossistemas aquáticos, livres de represamentos por empreendimentos hidrelétricos, visando restrições. A proposta foi aprovada pelo GT e pela maioria da plenária, com destaque apenas do setor elétrico e da Federação das Indústrias do estado de São Paulo (FIESP), que não concordaram com encaminhamento.

A problemática do setor elétrico na Bacia do Paranaíba é grave, e merece reflexão da sociedade. Apesar da Bacia já contribuir com cerca de 10% da energia do país, ainda estão planejadas dezenas de empreendimentos hidrelétricos nos rios de médio porte, com destaque para o sudoeste goiano (Figura 3) e rios Tijuco e Claro, onde estão projetadas 16 pequenas centrais hidrelétricas (Figura 4) que ocasionarão uma perda biológica representativa, além de atingir produtores rurais. 

Figura 3. Inventário hidroenergético do estado de Goiás. Destaque para sudoeste goiano, com previsão de dezenas de empreendimentos hidroelétricos (pontos amarelos). 

Figura 4. Inventário hidroenergético do estado de Minas Gerais. Destaque para a Bacia do Paranaíba (em rosa), com dezenas de Pequenas Centrais Hidrelétricas previstas. Fonte: Avaliação Ambiental Estratégica, Energia Minas Gerais.

O caso do rio Tijuco

O caso do Tijuco é peculiar, pois existem documentos oficiais do governo do estado de Minas Gerais (como o “Atlas das Áreas prioritárias para conservação da Biodiversidade no estado de Minas Gerais” e a “Avaliação Ambiental Estratégia – Energia”) que classificam o rio Tijuco como área de importância extrema para conservação dos peixes e, portanto de restrição ambiental para instalação de empreendimentos hidrelétricos, devido aos impactos irreversíveis que causariam aos peixes e demais comunidades de organismos aquáticos. 

Apesar de todos estes documentos técnicos e estudos científicos, atualmente na Superintendência Regional de Meio Ambiente – Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, encontram-se protocolados oito estudos de impactos ambiental (EIA), referentes a empreendimentos hidrelétricos no rio Tijuco.

Caso sejam aprovados, inundarão milhares de hectares, inclusive de terras produtivas, além de importantes fragmentos do Bioma Cerrado e Mata Atlântica, e dizimariam importante berçário de peixes migradores na Bacia, comprometendo a existência de algumas espécies na Bacia do Paranaíba, visto que os rios no sudoeste goiano também estão ameaçados por empreendimentos hidrelétricos.

Ao término das oficinas regionais, previsto para mês de outubro, as propostas serão encaminhadas para oficina nacional, que deverá ocorrer em novembro, na cidade de Fortaleza, durante o Encontro Nacional do Comitês de Bacias Hidrográficas (ENCOB).

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Há uma dificuldade política de criar unidades de conservação no Cerrado

Confira abaixo trecho da entrevista que a pesquisadora na UnB, Mercedes Bustamante, concedeu ao Jornal da Ciência no dia 21 de setembro. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

foto: Prof. Dra. Mercedes Bustamante. Greenmeeting.org


Na semana passada, o governo federal prometeu investir R$ 339,4 milhões no combate ao desmatamento do Cerrado. A medida faz parte do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento das Queimadas do Cerrado, estratégia para reduzir em 40% as emissões de CO2. O bioma, que em sua composição original cobria 24% do território nacional, já tem quase 50% da mata nativa degradada.

Segundo a professora Mercedes Bustamante, que estuda o tema no Laboratório de Ecologia que comanda na Universidade de Brasília (UNB), a degradação se intensificou na década de 1940, com o fluxo migratório para a região, e vem aumentando rapidamente. Com estatura baixa e fala calma, Mercedes é firme em suas opiniões.

Para ela, preservar o Cerrado é questão urgente e necessária para o Brasil. É ali que estão boa parte das áreas de pastagens e lavoura de grãos que abastecem o país. Sem os serviços ambientais que o bioma oferece, como manutenção do solo e regulação do ciclo hídrico, essas áreas, como a população que vive em torno delas, sofrerão as consequências.
Quais as consequências para a população local da não preservação de um bioma como o Cerrado?

Conviver com eventos de extrema seca; intensidade de queimadas; poluição do ar, que pode gerar problemas de saúde, são alguns deles.

Qual a extensão preservada do Cerrado?

O Cerrado tem dois milhões de quilômetros quadrados. Cerca de 50% estão preservados, se considerarmos apenas a extensão da cobertura vegetal. Há parques, há unidades de conservação. Mas a questão é que as áreas preservadas não são contínuas. Há fragmentos de mata nativa, o que é um problema pois dificulta o deslocamento de animais e a proliferação das espécies nativas.

Por que há menos áreas de conservação no Cerrado do que na Amazônia?

Há uma dificuldade política de criar unidades de conservação no Cerrado. A maioria das terras ali, diferente da Amazônia, é privada. As terras estão nas mãos de produtores. É mais fácil criar unidades de conservação em terras públicas e, mesmo as terras do Cerrado que pertencem à União, fazem parte da fronteira agrícola, ou seja, da reserva de terra do governo federal para fins de agricultura. Se é preciso aumentar área de produção para biocombustível, é no Cerrado que pensam.
A senhora acha que a iniciativa privada prefere estar mais presente na Amazônia do que no Cerrado?

A iniciativa privada está no Cerrado, só que de forma diferente que na Amazônia. As empresas são as mesmas, só que na Amazônia a visibilidade para elas é maior. Há interesses internacionais na região e por isso há pressões pela sustentabilidade do bioma. A verdade é que os dois biomas têm valores diferentes para o país. Só que a agenda ambiental não pode ser só para a floresta. A questão ambiental precisa ser para o Brasil.

Parque Estadual Pau Furado e regularização de terras



Triângulo Mineiro
Para compensar o impacto da implantação do complexo energético Amador Aguiar, em Uberlândia e Araguari, o Consórcio Capim Branco de Energia (CCBE) assumiu o compromisso de investir em uma unidade de conservação e doá-la para o Estado administrar. 

Em 2007, o Parque Estadual Pau Furado foi criado, mas até hoje o CCBE não conseguiu regularizar as terras. Segundo a assessoria de imprensa do grupo, das 17 áreas negociadas, apenas sete já fecharam acordos amigavelmente para transferir a posse, totalizando 398 ha. Isso significa que, dos 2.185 ha do parque, apenas 18% está em dia com a regularização fundiária. 

Enquanto todas as terras desapropriadas não estiverem indenizadas, o consórcio não pode transferir para o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Neste caso, o maior problema envolve uma área de 593 ha (um quarto do parque), que parte de um espólio de nove herdeiros, mas nem todos foram encontrados. (QA)

Direção do Parque
A Angá consultou o Diretor do Parque Estadual do Pau Furado, Sr. Erick de Almeida, que afirmou que a notícia do O Tempo não condiz com a realidade. Segundo diretor, o PEPF tem cerca de 75% da área regularizada, pois a maioria das propriedades está com a emissão na posse deferida ao IEF conforme decisão judicial.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Metade da avifauna brasileira pode ser encontrada no Cerrado

Composto por um mosaico de formações, dentre elas os campos limpos e sujos, as serras (campos de altitude e campos rupestres), as formações florestais (cerradões e matas ciliares), cachoeiras, rios, riachos, áreas alagadas, áreas secas e as veredas, o Cerrado tem hoje aproximadamente 837 espécies de aves catalogadas, cerca de 50% de todas as espécies de aves do Brasil ocorrem neste bioma e destas, 29 espécies são endêmicas.

foto: campo de altitude, Itabirito - MG. Eurípedes Luciano

foto: campo rupestre, Itabirito - MG. Eurípedes Luciano

foto: vereda, Clube Caça e Pesca Itororó de Uberlândia - MG. Eurípedes Luciano

foto: Cachoeira da Miné, Rio Uberabia, inserido no Bioma Cerrado, Uberlândia - MG. Eurípedes Luciano

foto: mata ciliar no Rio Paranaíba. Khelma Torga

foto: Cerradão, Comendador Gomes-MG. K.Torga.

foto: campo sujo. Gustavo Malacco

foto: campo limpo. Gustavo Malacco


Grandes variações na paisagem do Cerrado são decorrentes de variações climáticas. Invernos secos e verões chuvosos marcam bem a sazonalidade desta região.

Esta característica de sazonalidade climática, exerce influência na rota de várias aves migratórias, como o mergulhão-caçador (Podilymbus podiceps), o tuiuiu (Jabiru mycteria), alguns papa-capins como o golinho (Sporophila albogularis), caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxantha), a patativa (Sporophila plumbea) que passam por estas terras hora alagadas, hora secas, hora floridas, hora cheia de frutos e sementes, algumas ainda se reproduzem por essas bandas, como é o caso da tesourinha (Tyrannus savana) e do chibum (Elaenia chiriquensis).

Em suas terras planas é possível encontrar as ditas aves corredoras, como as emas (Rhea americana). Nas montanhas, onde afloram paredões rochosos, cachoeiras e nascem rios encaixados, formam-se habitats perfeitos para reprodução de Falconiformes como a águia-chilena (Buteo melanoleucus), a qual também desfruta das planícies savânicas para a caça.

Os rios encaixados abrigam espécies criticamente ameçadas de extinção como o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) e suas cachoeiras proporcionam substrato para a reprodução de andorinhões como o taperuçu-de-coleira-branca (Streptoprocne zonaris) e o taperuçu-velho (Cypseloides senex).

foto: mergulhão-caçador (Podilymbus podiceps). Gustavo Malacco

foto: tuiuiu (Jabiru mycteria). Gustavo Malacco

foto: golinho (Sporophila albogularis). Gustavo Malacco

foto: patativa (Sporophila plumbea). Gustavo Malacco

foto: tesourinha (Tyrannus savana). Gustavo Malacco

foto: emas (Rhea americana). Gustavo Malacco

Em seus ambientes florestais, matas ciliares e cerradões, assim como em seus campos, aves endemicas são as donas da casa. O soldadinho (Antilophia galeata) em que o macho com seu tope vermelho à frente da cabeça faz jus ao nome, canta insistentemente na época reprodutiva, demaraca e defende seu território a todo custo, conquistando uma fêmea para se reproduzir.

O fura-barreira (Hylocryptus rectirostris), com sua aparência imponente, reclama com seu “resmungado” insistente um espaço no barranco dos rios protegidos pelas matas ciliares, um espaço para furar o barranco e construir seu ninho. Já o tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata), típica dos campos limpos, canta todos os meses do ano e faz seus ninhos em moitas de gramíneas.

foto: fura-barreira (Hylocryptus rectirostris). Gustavo Malacco

Chamado por alguns de “A Fênix” o Cerrado renasce das cinzas, mas isso desde que o fogo faça parte dos processos naturais (como em tempestades, onde o fogo é causado por raios e imediatamente é controlado pelas águas da chuva).

E logo após as queimadas uma verdadeira explosão de vida acontece, plantas brotam e outras florescem disponibilizando pólem e néctar para beija-flores como o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) e para uma variedade de insetos, e estes insetos servem de alimento para vários outros animais inclusive diversas aves como o caminheiro-de-barriga-acanelada (Anthus hellmayri).

foto: beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris). Gustavo Malacco


foto: caminheiro-de-barriga-acanelada (Anthus hellmayri). Gustavo Malacco

Além de todas estas características que contribuem para a grande biodiversidade existente no Cerrado, a savana brasileira está localizada no centro do país, em contato com Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal, estes biomas, acabam compartilhando com o Cerrado muitas características de sua fauna e flora.

Informações científicas:

HOTSPOTS, As regiões biologicamentes mais ricas e ameaçadas do planeta. Documento 1.

RODRIGUES, M. ; COSTA, Lilian Mariana. Diversidade e Conservação de Aves na Serra do Cipó, Minas Gerais. Atualidades ornitológicas, Ivaiporã, v. 130, p. 28 - 28, 30 mar. 2006.

KLINK, C. A. ; MACHADO, R. . A conservação do Cerrado brasileiro. Megadiversidade, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 147-155, 2005.

www.wikiaves.com.br

eleições 2010


A incrível jornada da sacola plástica

Nos moldes dos tradicionais documentários da vida selvagem produzidos pela BBC ou NatGeo, esse pequeno vídeo, narrado pelo ator Jeremy Irons, mostra as desventuras de uma sacola plástica durante sua jornada de volta ao lar - a grande ilha de lixo que flutua no oceano Pacífico.
Uma crítica bem humorada ao uso desenfreado desse acessório que se tornou a marca registrada do século XXI.
Divirtam-se.

sábado, 11 de setembro de 2010

Cerrado: patrimônio nacional ou Bioma esquecido?

foto: nascer do sol no Cerrado. Grazie Pascoli

Hoje, 11 de setembro é o dia oficial do Cerrado.

Mais conhecido pelo seu potencial de expansão do agronegócio, poucos se lembram que esse ecossistema é o segundo maior do país, atrás apenas da Floresta Amazônica.

O Cerrado é característico pela variedade de vegetação. Nas áreas de chapada existem os campos naturais; nas serras são encontrados campos rupestres e cangas, como na região do Quadrilátero Ferrífero e da Serra da Canastra, que ontam com grande número de espécies exclusivas.

Ainda existem ambientes de transição entre a mata e o campo, que é o cerrado sensu stricto, caracterizado por suas árvores de casca grossa e galhos tortos e as veredas, berço dos buritis e verdadeiras caixas d’água. Por fim, o bioma Cerrado também inclui ambientes florestais - matas ciliares ou de galeria - que acompanham rios ou córregos; as matas secas e os cerradões, característicos e bastante ameaçados na região do Pontal do Triângulo Mineiro.


Esse mosaico de vegetação favorece uma grande biodiversidade de espécies de plantas e animais. Há nos Cerrados cerca de 10.000 espécies de plantas lenhosas (4.400 ou 44% endêmicas); 837 espécies de Aves (29 ou 3,4% endêmicas); 161 de mamíferos (19 ou 11% endêmicas); 120 de répteis (24 ou 20% endêmicas) e 150 espécies de anfíbios (45 delas ou 30% endêmicas).

Além disso, o Cerrado contém as três maiores bacias hidrográficas sul-americanas. Seis das oito grandes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes na região: a bacia Amazônica, a bacia do Tocantins, a bacia Atlântico Norte/Nordeste, a bacia do São Francisco, a bacia Atlântico Leste (Rios Pardo e Jequitinhonha) e a bacia dos Rios Paraná/Paraguai.


Foto: vegetação rupestre e nascente no Parque Nacional Serra da Canastra. G.Pascoli

No Brasil, o Cerrado está ao lado da Mata Atlântica com o sério título de Hotspot mundial - áreas definidas por pesquisadores por serem prioritárias para conservação, com grande diversidade biológica, altos níveis de endemismo, sob perigo imediato de extinção de espécies e destruição dos ambientes naturais.

Estima-se que a perda de vegetação natural do Bioma esteja entre 48% (IBGE) e 68% (Conservation International), convertidas em pastagens intensivas e agriculturas mecanizadas. Uma ameaça recente ao Cerrado é a expansão dos biocombustíveis, especialmente da cana-de-açúcar. A pesquisa Indicadores de Desenvolvimentos Sustentável (IDS) 2010 chama atenção para o ritmo do desmatamento do bioma e sugere medidas urgentes, como a criação de unidades de conservação em áreas de fronteira agrícola.

Mesmo incluído na lista mundial de Hotspots desde o ano 2000, e de ter sido transformado em Patrimônio Nacional pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 504/10 do Senado, em agosto desse ano, ainda encontra-se bastante ameaçado.

Apenas no ano passado o Ministério do Meio Ambiente começou a monitorar o Bioma anualmente, considerando taxas de desmatamento e incidência de queimadas. Segundo o MMA a taxa anual de desmatamento é de cerca de 1% ao ano. Considerando este ritmo, em menos de 30 anos, o Bioma pode deixar de existir.

Os estados campeões de desmatamento são o complexo MAPITOBA (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), porém Minas Gerais não fica muito atrás, pois cerca de 65% do Cerrado original já foi convertido.


Em relação às áreas protegidas, apenas 6% do bioma cerrado foi transformado em parques estaduais e federais. Infelizmente parques como a Serra da Canastra, Chapada dos Veadeiros e Grande Sertão Veredas são comumente ameaçados por tentativas de mudanças na legislação encabeçadas por deputados federais e senadores financiados pelo agronegócio e mineração, com o objetivo de diminuir o tamanho das Unidades de Conservação.

Mesmo dentro das unidades de conservação, a flora e fauna não estão livres de ameaças. O Parque Nacional das Emas está com 93% de sua área queimada, e o Parque Nacional da Serra da Canastra já perdeu 40 mil hectares de vegetação comprometidos pelo fogo criminoso, facilitados pela falta de fiscalização.

Apesar de tanto descaso, o desenvolvimento sustentável da região central do país continua sendo praticado, vide os projetos coletivos Central do Cerrado e Empório do Cerrado, que utilizam o conhecimento popular para explorar de forma coerente a riqueza única das plantas do Cerrado.

Foto: semente de baru (Dipteryx alata). Típica do Cerrado, castanha é saborosa e possui alto valor nutricional. fonte: Central do Cerrado.

Informações científicas: CERRADO: Ecologia, Biodiversidade e Conservação/Aldicir Scariot, José Carlos Sousa-Silva, Jeanine M. Felfili (Organizadores). Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2005.
Mapa: Conservation International.
ilustração: Ribeiro e Walter, 1998. Fitofisionomias do bioma Cerrado .In: Cerrado: flora e fauna (S.M. Sano & S.P. Almeida, eds). EMBRAPA-CPAC, Planaltina.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cientistas atacam selo "verde" de pesca


Em artigo na revista "Nature", pesquisadores acusam o MSC (Conselho de Boa Gestão dos Mares, em inglês) de se preocupar cada vez mais com os interesses da indústria pesqueira, deixando de lado as questões ambientais.

"Nós acreditamos que os incentivos do mercado afastaram o esquema de certificação de seu objetivo original, promovendo, como nunca antes, a certificação das operações de capital intensivo", afirmam os cientistas, liderados por Jennifer Jacquet e Daniel Pauly, da Universidade da Colúmbia Britânica.

De acordo com eles, a expansão do órgão acompanhou o interesse por frutos do mar pescados de forma responsável. As indústrias certificadas saltaram de seis, em 2004, para 94 atualmente. Outras 118 estão em processo de avaliação.

A certificação da pesca do krill da Antártida (Euphausia superba) - um crustáceo de mares frios semelhante ao camarão- é outro dos tópicos mais sensíveis.

Eles são a base da cadeia alimentar do ecossistema, servindo de alimento para peixes, baleias e vários outros animais marinhos.

Os pesquisadores contestam os números do MSC - de que apenas 1% dos krills estão sofrendo pressão pesqueira. Citam estudos anteriores que falam da rápida e crescente redução dessas populações. E há outros casos aparentemente ainda mais graves.

Veja a matéria completa clicando no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/794112-cientistas-atacam-selo-verde-de-pesca.shtml

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

123 mil campos de futebol queimados

A Oréades Núcleo de Geoprocessamento, ONG com atuação no Centro-Oeste e sede na cidade de Mineiros - Goiás, publicou nesta semana uma análise detalhada de imagens de satélite mostrando a extensão do incêndio que afetou o Parque Nacional das Emas.

Utilizando registros do satélite indiano ResourceSat, a Oréades calculos que 93% da unidade de conservação foram queimados. A área equivale a 123 mil hectares, lembrando que aproximadamente 1 ha equivale a um campo de futebol.

A imagem abaixo mostra à direita os limites da área protegida cercados por fazenda e, em seu interior, o terreno enegrecido pelas queimadas. Os 7% ou 9,6 mil hectares que foram poupados pelo fogo estão circulados pela linha amarela.

Fonte: O Eco

Cerrado é o bioma mais atingido pelas queimadas em 2010

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, apresentou nesta terça-feira (31) um levantamento feito em 109 pontos críticos em relação a queimadas que mostrou que mais de 67% do total de focos de incêndio de julho e agosto estão em áreas privadas e acontecem porque fazendeiros e índios usam o fogo para manejo de pastos e lavouras e perdem o controle, segundo nota divulgada por sua pasta.

De acordo com levantamento do Ministério do Meio Ambiente, 13% dos focos de incêndio estão em terras indígenas, 8% em assentamentos da reforma agrária e 7% em unidades de conservação. Teixeira apontou ainda que as queimadas no país estão concentradas no bioma cerrado.

O Ibama e o Instituto Chico Mendes fizeram, ainda, um levantamento das ações do governo no combate ao fogo. As ações consumiram R$ 30 milhões com o envolvimento de mais de 5 mil homens, oito aviões, sete helicópteros e pelo menos 90 viaturas, em 109 áreas críticas.

A ministra nunciou a liberação de mais R$ 20 milhões para novas operações, que devem se estender até meados de setembro, quando as chuvas devem voltar. Quase 260 mil focos de calor registrados pelos satélites utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) não correspondem, de acordo com Teixeira, ao número de incêndios, que pode ser menor.

Fonte: Globo Amazônia